quarta-feira, 22 de julho de 2009

O dedo-duro e o louco

Assisti o filme Loki, sobre Arnaldo Baptista, nesta semana. Há cerca de um mês fui ao cinema ver Simonal, Ninguém sabe o duro que dei. Dois ótimos documentários. Fico feliz por ver a história da música brasileira sendo relembrada. As homenagens foram merecidas, principalmente em vida, no caso de Baptista, já o do Simonal veio bem tarde.


Uma coisa achei interessante, foi a vida profissional dos dois. Eles têm vários pontos em comum, apesar das origens e dos estilos musicais serem bem diferentes.

Dois grandes músicos que revolucionaram a MPB. Simonal com o samba da pilantragem cheio de swing e o Arnaldo Baptista com o psicodelismo e as guitarras elétricas.


Ambos conquistaram a fama em meados dos anos 60. Wilson Simonal chegou a estratosfera da popularidade, comparável apenas à Roberto Carlos. Já Arnaldo Baptista ficou conhecido por ser o líder da banda mais criativa e moderna do Brasil, os Mutantes.

É bom relembrar que a década de 60 foi uma explosão. Rebeldia juvenil, enorme criatividade artística, guerras, comunismo X capitalismo, novas formas de se observar o mundo e a família e muitas outras coisas. O Brasil sofria com os movimentos externos e ainda passava por uma ditadura militar. Os generais mandavam em tudo, os brasileiros deveriam seguir as regras como uma disciplinada tropa. A liberdade era uma palavra distante.

Baptista e Simonal se saíram bem, saíram enriquecidos materialmente e musicalmente. Foi o melhor período dos dois, porém os anos 70 não os perdoaram. E o ano de 1972 foi crucial. Neste ano, Simonal manda espancar seu contador, sob a acusação de roubo. Prepotente, achava que sua popularidade seria seu salvo conduto pelo crime que cometeu. Mas, como era um sujeito próximo dos milicos, logo logo alguns jornais começariam a chama-lo de delator, ou seja ele seria uma informante do Dops, órgão que caçava e torturava muitos dos que eram contra o regime. O estigma de dedo-duro foi tão pesado que nunca mais conseguiria eliminar.

No mesmo ano, Arnaldo Baptista sofre com a saída de Rita Lee da banda e da sua vida, como esposa. Os Mutantes, se arrastariam por mais 4 anos até o seu fim. Arnaldo Baptista demorou muito tempo para esquecer a ex-mulher.

Seu comportamento fora dos padrões e muitas vezes bipolar, o fizeram se afastar das pessoas e logo foi tachado de louco. Estigma que carregou durante décadas e que ainda não conseguiu retirar por completo. É bom lembrar que Baptista foi internado em clínicas psiquiátricas umas 4 vezes.

Um pouco de música, além ds drogas e bebidas foram a válvula de escape do sofrimento atroz. Eles sentiram na pele o pior para um artista: o ostracismo.

As décadas de 70 e 80 e 90 se arrastam. Pareciam intermináveis. Wilson Simonal acabaria sumido da mídia, como se virasse fumaça. Penso que se ele tivesse morrido em 1972, seria hoje muito mais lembrado. O peso da palavra dedo-duro foi marcante, uma tatuagem que ele tentou apagar, mas todos só reparavam nela. Morreu esquecido, fazendo shows em locais mal freqüentados, decadentes e para públicos pequenos.


Arnaldo Baptista formou outras bandas que não deram muito certo. Também fez shows em locais mal freqüentados e decadentes e para públicos pequenos. Porém ele conseguiu se sobressair. Graças a musicos estrangeiros. Foram os gringos que lembraram que os Mutantes era geniais, fato que nós brasileiros já tinhamos esquecido a muito tempo. Ele voltou com tudo fazendo shows e lançando discos de inéditas, continua em plena forma. Bom para ele e para todos nós.

Encerro pensando que ambos sofreram com polêmicas, fortes críticas e sobretudo o preconceito. Mas a vida, já diria os mais velhos, dá voltas e hoje eles são revistados pelos jovens. Os holofotes voltam a ser ligados e suas sombras projetadas na música contemporânea. Fama, admiração, dinheiro e novas polêmicas ressurgem. Arnaldo Baptista e Wilson Simonal são as duas fênix da vez....Quem ganha é o público e a MPB. Quem será o próximo?




















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